Entre Pedalanças e Andanças. Crónica de uma viagem (engl translation coming soon)

De comboio inicia-se a saída de Lisboa e, sem deixar a beira do Tejo, começam as pedaladas. Entre as estradas ribatejanas, a escolta dos campos de regadio de milho, tomate de industria e outras hortícolas. Aparecem de continuo praias fluviais no Tejo, banhos que ajudam a refrescar, mas que assustam só de pensar em todo o trajecto que já passaram essas aguas. O funana já convertido na música de acordar, e também o compasso binário de oxigénio para as subidas a Gavião. Com elas entramos de volta no Alentejo. A paisagem traz de volta os descortiçados montados de sobreiros e um bafo agostado só colorido pelas veranais flores do hipericão e do asfodelo. No horizonte já da para ver a serra de Marmelete e entre ela Castelo de Vide e Marvão.

Depois de 180 km e algumas tatuagens de óleo nas pernas, termina uma viagem que fomenta outra mobilidade. Terminam três días de dança compassada numa pedalada que, em familia, sente-se veículo seguro ante os de cuatro rodas. Três dias para deixar de novo demostrado que não há viagem mais linda que a que fazes com as tuas pernas e mais sóbria se as alforgues são a tua única bagagem. Com a subida ao Marvão termina o Pedalanças e começa o Andanças.

As expetativas do Andanças nunca podem ser mais altas. As pernas estão já alegres das pedaladas e prontas a dançar. O calor é infernal, mas Castelo de Vide sempre é lindo e já cheira a música em cada cantinho. O Andanças é diferente, tão singular que é o Festival. Um encontro já velho, de ambiente familiar, intergeracional, autónomo e sem publicidades. Mas o mais importante é que recupera a relação com a música dos bailes de aldeia. A música deixa de ser aquele desfrute passivo de olhar unidireccional acima dum palco e volta a ser a festa participada, ou o que é o mesmo, bailada. A dança liberta inevitavelmente o sorriso e através de abraços e olhares pode-se viajar pelos ritmos de todo o mundo. Bailados em grupo, em solitário ou em par são a dínamo que recarga energias e que só precisa reabastecer de agua na inseparável caneca de alumínio para levar-te de baile em baile, de jam em jam até o nascer do sol.

 
No fim, há sensações que perduram… melhores seriam as relações humanas e a mobilidade se aprenderam do Pedalanças e do Andanças. Agora já toca esperar um ano, mas, as vezes, há histórias das que é preciso deixar escrita crónica. Que como dizia Eduardo Galeano: “os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me diz que somos feitos de histórias”.
 
 
 
 

 

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